sábado, 20 de abril de 2013

Multiplicidade do eu




Um tema de conferência, não em geral, mas um tema como este – “Multiplicidades do eu ” -, quando o conferencista se dispõe a experimentá-lo, começa por verificar que ele exerce uma pressão sobre todas as suas faculdades. Todas as faculdades começam a se agitar ao se deparar com o tema “Multiplicidades do eu “. E nessa agitação, elas como que se reúnem e solicitam da alma um auxílio: que a alma pressione o pensamento e o faça funcionar, num exercício involuntário. Em mim essa pressão da alma sobre o pensamento então emergiu; e nessa emergência, na confrontação com as “Multiplicidades do eu “, a todo instante há a verificação de que seria necessária a penetração nos mistérios e nas questões do tempo. Por causa disso, meu pensamento – e não eu -, no seu exercício involuntário, escolheu como vias de penetração na questão tocar, por um lado, um tema que atravessa os séculos, misturado com o maravilhoso e com o encantamento, que é o animismo; e, por outro, abordar o tema raro, só pertencente à filosofia, que é o do nascimento do tempo.
Então, a minha conferência, pelo exercício involuntário do pensamento, se bifurcou, se abriu em duas linhas. A primeira linha: as dificuldades do animismo. A segunda linha: as dificuldades do nascimento do tempo. Diante disso, eu me vi novamente forçado a transformar a oralidade em escrita para poder ser mais claro na minha apresentação. Mas, enquanto eu perseguia a exposição na escrita, cada vez mais eu mergulhava nas dificuldades. E aí, resolvi estacionar a escrita e voltar à oralidade…

É essa a experiência que nós vamos fazer juntos – meu exercício involuntário do pensamento. Mergulhando na escrita e subitamente descobrindo que seria necessário abandoná-la para fazer a exposição da questão das multiplicidades do eu: esses movimentos me mostraram nitidamente que eu estaria diante de um confronto entre o narcisismo formal e o narcisismo material, entre a síntese passiva do tempo e a síntese ativa do tempo. Só em falar nisso, sei que se começa a gerar uma série de dificuldades. Então, boa viagem para nós todos.
Nesta conferência, irei dizer o que vou fazer, como nos créditos de um filme, que o antecipam; mostro o que vou fazer. Mas logo que os créditos terminam, o filme começa. Quanto a mim, logo que estiver dizendo o que vou fazer, simultaneamente já o estarei fazendo. Esta conferência é como um frontispício de um livro que não existe, como no Livro dos Prefácios, de Jorge Luís Borges. Ou melhor, o frontispício de que lhes falei é todo um livro, é toda esta conferência.
Começar com o animismo; usando-o, ao animismo, como produto de uma costureira celestial que faz do animismo o pesponto que une os limites da eternidade e do tempo. Essa costureira celestial, em outra linguagem, chama-se Plotino. Eu acredito que chamá-lo de costureira celestial, usar a tecnologia do tecido para citá-lo, não ofenderá a meu mestre Deleuze. Tudo é animado e vivo no animismo, ainda que, neste parágrafo, reproduzindo tudo o que se diz na história da arte quando a referência é o homem clássico, o animismo seja tomado como um modelo clássico de uma projeção orgânica sobre toda a matéria como, por exemplo, a Alma do Mundo no Timeu. Estou dizendo que aqui é o animismo ainda governado pelas projeções orgânicas que o homem faz sobre a natureza. Este homem, o homem clássico, tornou-se a medida de todas as coisas, assimilando o mundo à sua pequena humanidade. Ou seja, o homem clássico – e aqui estou utilizando Wölflin na sua História das Artes - é exatamente o modelo da projeção orgânica que fazemos sobre a natureza.
A explicação platônica para a origem da Alma do Mundo é a mescla harmônica executada pelo Demiurgo; o que significa que Platão, quando teve necessidade de explicar o nascimento do tempo, precisou introduzir um deus.
É tudo diferente em Plotino. Quando digo ‘é tudo diferente em Plotino’, estou projetando uma questão teórica de altíssima dificuldade, porque o Plotino dado pelo Ocidente é um Plotino hegeliano, e Hegel fez dele nada mais do que uma colagem entre Aristóteles e Platão. Na verdade, o Plotino que vai aparecer aqui não é o de Hegel, mas o Plotino de Plotino. Ele dará ao animismo uma extensão ilimitada. Toda força ativa na natureza é uma alma ou se liga a uma alma, como as almas de Proust que povoam as matérias, as coisas, os objetos, tornando presentes neles as sensações, os afetos e os perceptos.
Não só o mundo tem uma alma, também os astros, também a Terra tem uma alma, graças à qual ela dará às plantas a potência de engendrar. O vitalismo imperante em Plotino teve seu eco na Renascença, em Giordano Bruno e Nicolau de Cusa e também em Spinoza e Leibniz. O animismo emerge com um potência extraordinária na obra de Plotino, ressoa em Giordano Bruno, ressoa em Nicolau de Cusa e, mais ainda, ressoa em Leibniz e ressoa em Spinoza (Spinoza e Leibniz, esses dois animistas!)
Mais à frente, na escola inglesa, esse desenvolvimento ecoa com a vitalidade de toda uma corrente que espiritualiza o real. Trata-se por exemplo de Samuel Butler que diz: ” Nosso Senhor disse para seus discípulos considerarem os lírios dos campos que nem tecem nem trabalham, mas cuja vestimenta é mais bela até mesmo que a vestimenta mais gloriosa de Salomão.” Jamais poderemos fazer a concepção, a germinação de uma rosa, como o faz uma semente de rosa que converte a terra, o ar, o calor e a umidade em uma rosa florescente, em uma rosa no esplendor da sua vitalidade cromática, aromática e táctil. De onde sai o colorante que torna a rosa colorida? Sim, da terra, do fósforo, do carbono. Sim. Mas como? Sem mãos, sem braços, sem instrumentos, a semente da rosa contempla a matéria que a constitui.
Aqui, o animismo deixa de ser um envolvimento com as tolices da maravilha para tornar-se explicitamente traços, forças na vizinhança de um sistema físico ou de um organismo vivo, traçando uma linha abstrata, independente, nômade, vetor livre, linha selvagem, sem outro desígnio que não sua própria errância. Nela, por ela, em suas bifurcações, clinâmens e variações, encontra-se Deleuze que afirma a proximidade do animismo e da biologia, quando multiplicam-se as pequenas almas imanentes aos órgãos e às funções – com a condição de se lhes retirar qualquer papel ativo ou eficiente.
Assim, Deleuze seria como que um momento dessa tradição de pensamento que teria emergência em Plotino e que segue errante e triunfalmente pelos mais brilhantes pensadores da Humanidade. Eis quando Deleuze liga, de uma maneira notável, o animismo à biologia molecular, mostrando que todas as grandes conquistas que a biologia teria feito nesse século seriam fundamentadas na força do animismo, o que leva os biólogos a exercerem um pensamento totalmente original como se fosse um prolongamento do Erehwon, do trabalho de Samuel Butler; sua semente contemplativa encarnando-se na biologia molecular poderosa.
Alma, então, como a semente da rosa: somente focos de percepção e de afecção moleculares, contemplações, microcontemplações. Os corpos todos, quaisquer, nenhum em exceção, são povoados de pequenas almas, de mônadas. As mônadas: a idéia monadológica soberba, a espiritualização do real. E a verdade, então, será a força que não age mas que percebe e experimenta.
Nesse momento, começa despontar para vocês a grande questão da obra de Deleuze, centrada em Diferença e Repetição, onde ele vai distinguir entre a síntese passiva e as sínteses ativas, e começar a invadir e conquistar – e isso está em toda a sua obra – o tempo. É exatamente isso que está acontecendo aqui, quando se começa a falar da espiritualização do real, e o espaço torna-se penetrado por estas forças de percepção e experimentação. É o fundo invisível que Van Gogh buscava e colocava nos seus girassóis, no permanente frêmito daquilo que nasce. É como se estivéssemos nessa linha abstrata em que, de um lado, estão as forças invisíveis do tempo e, do outro, as suas conseqüências, as suas criaturas, nós, as rosas, os girassóis de Van Gogh.
O real é adicionado de intensidade – aquilo que é monadicamente fragmentado, mônadas ou moléculas metafísicas – com as variações da beleza e da individuação que emergem como pontos, como constelações brilhantes, singularidades: a meta-estabilidade com seu ser esquartejado como diferença de qualidade e de quantidade, o diferencial pré-individual, como a membrana topológica e aiônica concebida pelo futuro exterior e pelo passado interior, responsáveis pela gênese ininterrupta do vivo. (Refiro-me aqui ao trabalho que Gilbert Simondon fez sobre a topologia da membrana como uma das fontes do nascimento do vivo.) Pela gênese ininterrupta da beleza, percepção, contemplação. No coração da pop-art; nas muitas almas da pop-art, nas muitas almas de Andy Warhol, nas imagens-contemplação das vozes de Lou Reed e de Arnaldo Antunes.
Os corpos são povoados de uma infinidade de pequenas mônadas, de observadores parciais. Assim ocorre com toda a biologia molecular, em toda imunologia, com as enzimas alostéricas, com o demônio microscópico com função cognitiva (recordo aqui o demônio de Maxwell). O organismo é uma máquina que se constrói a si mesma; constitui-se de modo autônomo graças aos observadores parciais.
Spinoza parte da vida de Deus e não vê na vida do homem ou dos outros seres vivos senão um caso particular, melhor dito, uma expressão da vida da Natura Naturans. Repetindo: Spinoza parte da vida de Deus e não vê na vida do homem ou dos outros seres vivos, ou seja, das criaturas, senão um caso particular, melhor dito, uma expressão da vida do próprio Deus.
Tudo tem seu começo. Apareceu na errância da linha abstrata com Plotino, na Enéada Terceira, Tratado VII, ” Da Eternidade e do Tempo “; e Tratado VIII, ” Da Natureza, da Contemplação do Uno “, que são antecipados no texto que exponho por aquilo que elas causaram, por aquilo que elas influenciaram: a arte bizantina.
O que eu afirmo agora é que reveríamos Plotino na arte bizantina. A arte estaria além da própria beleza, a arte que se encaminha para o sublime – Kant, Terceira Crítica “. O olhar é tornado magnificente na divindade. Questão propriamente bizantina: como pintar Deus? Pergunta angustiante: como pintar Deus em si mesmo? Em que virtualidade, na terminologia de Bergson? Pintar Deus em si mesmo e não por nós. Se ele deve ser adorado, ou melhor, se ele deve ser visível para poder ser adorado, ele enfraquece. Enfraquecer Deus? Que impiedade! Que ultraje! Mas eis a solução prodigiosa: invertendo a relação olhante/ olhado, fazendo Deus impor-se não mais como objeto a ser contemplado mas, de outro modo, como um sujeito que nos contempla do fundo do olho. Como nos contempla por todo o espaço celeste, não importando qual ângulo, não escaparíamos jamais a seus olhos. O olhar de Deus nos contempla porque existimos, pois o olhar de Deus é o tempo ou, mais belo ainda, a contemplação por ser contemplação é imediatamente tempo.
Se eu estivesse dentro das minhas universidades, eu diria: nesse instante começo a minha aula. O que eu acabei de dizer para vocês… a tese que eu estou passando e que é difícil de ser exposta… é que a emergência do tempo pressupõe a alma, e esta alma é uma alma contemplativa. Mas se seguirmos a tradição desse pensamento, vamos encontrar com uma clareza excepcional, em Bergson, essa alma contemplativa tornando-se simultaneamente contemplativa e contraente. E é exatamente nessa contração que o tempo emergiria. O olhar de Deus é uma categoria do tempo, é o nascimento do tempo. Diz Deleuze: “Os organismos se despertam com as palavras sublimes da Terceira Enéada: tudo é contemplação.” Aproximamo-nos das duas sínteses, passiva e ativa; da síntese passiva e da imagem direta do tempo; do corpo sem órgãos.
Quando a obra de Deleuze se expressa nessa questão, digamos, de múltiplos eus, ele leva essa questão longe… Se o José Gil fosse fazer um trabalho sobre o Fernando Pessoa, se ele fosse fazer um trabalho sobre os heterônimos, ele conduziria os heterônimos para o que se chama síntese passiva, onde se dariam as multiplicidades do eu. Deleuze levaria para o que chama nas suas outras obras de imagem direta do tempo, ou o que chama ao longo de toda sua obra de corpo sem órgãos. Esses múltiplos eus, então, não pertencem ao sujeito conforme sujeito em sua expressão orgânica. Esses múltiplos eus são intensidades da síntese passiva, da imagem direta do tempo e do corpo sem órgãos.
Uma expressão do tipo “o bom senso ” não desempenha aqui nenhum papel capital, nenhum papel na doação de sentido. O bom senso vem sempre em segundo lugar, em sua distribuição sedentária. O que estou chamando de bom senso é o uso que fazemos das nossas faculdades; segundo a Crítica da Razão Pura, esse uso das faculdades é governado pelo entendimento, e esse governo é que se chama bom senso. Então o bom senso constrói um tipo de mundo, esse mesmo mundo que é da flecha do tempo, que parte do presente para o futuro. Mas, por baixo desse bom senso, as sínteses passivas, o corpo sem órgãos ou, numa linguagem poética, o rugido de Dionísio, as potências do inconsciente rugindo sob as formas da consciência.
A filosofia estóica – cito agora a filosofia estóica porque estou seguindo Deleuze – não consiste em adotar a direção do bom senso. Deleuze encontrou nas suas investigações – não de historiador de filosofia porque ele não é um historiador de filosofia (o que não vou explicar agora porque não nos interessa) – um tipo de pensamento, a filosofia estóica, que não estaria submetido ao domínio do bom senso, ou seja, ao domínio do entendimento como legislador das outras faculdades, conforme o modelo de Platão e de Aristóteles. Ao encontrar os estóicos – a filosofia estóica não consistindo em seguir a direção do bom senso, a direção da flecha do tempo, mas como iniciativa apaixonada – descobre que não podemos separar as duas direções do tempo.
A filosofia estóica descobre o acontecimento e com ele uma nova teoria do signo. A distinção estóica entre signo natural e signo artificial desencadeia, nessa minha exposição, o nascimento do tempo. Como foi dito, uma das grandezas do estoicismo foi ter mostrado que todo signo é signo de um presente do ponto de vista da síntese passiva, em que passado e futuro – atenção – são apenas dimensões do próprio presente. Trata-se do presente vivo, tal como o olho de Plotino: um dos extremos do raio de luz que emana do Uno, quando o passado e o futuro são dimensões do presente.
A retenção e a propensão. Quando a retenção não é uma reprodução memorativa do passado, nem a propensão concebida como esperança, não resta senão a implicação do passado e do futuro no presente, só concebível nessa síntese misteriosa. Os tempos são três: presente das coisas passadas, presente dos presentes e presente dos futuros. É a bela fórmula de Santo Agostinho: há um presente do futuro, um presente do presente e um presente do passado. Todos eles implicados e enrolados no presente, simultâneos e inexplicáveis. A simultaneidade da síntese passiva: as três pontas do presente.
Se nos propusermos a aceitar a pressão que a alma exerce sobre o pensamento e deixarmos o pensamento penetrar, ele tem que destruir necessariamente as forças do bom senso para começar a trabalhar no tempo – porque o tempo é o meio dos paradoxos, e o bom senso detesta o paradoxo. Quando o pensamento penetra no tempo, quando ele penetra no ser do tempo, o que encontra é a simultaneidade do tempo, as três pontas do presente. Essas três pontas do presente é que geraram, possibilitaram, por exemplo, Ano Passado em Marienbad. Toda a obra de Deleuze se explica pela conquista do tempo, muito ao modo de Bergson, com sua imagem coalescente, quando o passado e o presente devem ser pensados como graus extremos coincidindo na duração.
Como foi dito mais atrás, não estamos no reino do bom senso ou do signo artificial que remete ao passado e ao futuro como dimensões distintas do presente. É a oposição de Áion e de Kronos. Este último é o presente fugaz, que só existe na passagem do passado ao futuro, duas dimensões, tais que vamos sempre do passado ao futuro. Áion é quando o passado e o futuro são apenas dimensões do próprio presente, é o momento da imaginação espontânea, o momento do nascimento do tempo. Trata-se do eu passivo, e que se explica fundamentalmente por não depender de sua receptividade, da recepção das partes eternas que se repetem, mas são apenas sensações; a contemplação contraente da qual emergem os organismos.
O que estou dizendo, então, seguindo Deleuze, é um plotinismo: é como se a eternidade fosse uma espécie de Sol do qual emanariam raios. As pontas que estão no Sol são eternidade; as pontas que tocam a Terra são tempo. Então, nessa ponta da Terra é que vai aparecer o tempo, a síntese passiva e, a partir daí, os organismos. É muito parecido com o que Artaud disse: “A vida não é o organismo; a vida é a síntese passiva.” O organismo é um domínio sobre a vida. A vida são as forças, os fluxos que emergem, esses fluxos paradoxais do presente simultâneo. Daí é que viria o organismo. E nós confundimos o modelo orgânico com o modelo da vida…
É isso que nos dá, por exemplo, toda a obra, de Castañeda, conforme aquela distinção famosa entre nagual e tonal. Toda a questão de Castañeda é exatamente a dominação do homem orgânico, que não é capaz de compreender nada que transborde as linhas da sua existência; tudo que transborda as linhas da sua existência, ele joga para o campo das maravilhas. Ele não é capaz de compreender que, além das linhas da sua existência, estariam exatamente as forças do pensamento e as forças genéticas da vida. Os eus passivos são sujeitos larvares, desde que se estabeleça em alguma parte uma contemplação furtiva, desde que funcione em alguma parte uma máquina de contemplação e de contração capaz de, na passividade, impor uma diferença à repetição.
O mundo moderno tem seus grandes mestres dos eus larvares, entre outros, Beckett e Lowry que, para além das sínteses ativas, atingem as sínteses passivas que nos constituem.
Por mais que um pensador pretenda tornar o seu pensamento fácil para que ele seja claramente entendido, isto jamais pode acontecer. O pensamento não é difícil por acidente, ou seja, ele é difícil agora e se tornará fácil quando eu cursar a minha universidade. Não! A essência do pensamento é a dificuldade. A essência do pensamento é o difícil. E o que eu chamo de pensamento são todas as ciências, todas as filosofias e todas as artes. Ou seja, sempre que o pensamento está fazendo o seu exercício, junto com ele emerge o difícil. Então, não há nenhum motivo para o pensador se preocupar em tornar fácil a sua exposição. O que o pensador tem que fazer quando expõe seu pensamento, ao invés de conquistar pela clareza e pela distinção do que ele expõe, é fazer uma prática de tal forma bela que ela produza rizomas, e que esse pensamento, então, se expanda por esse processo, se expanda por rizomas. É o meu procedimento nessa exposição.
Para concluir, acredito que seja melhor que prossiga o que estou dizendo, explore as dificuldades do que estou dizendo, através de perguntas que por acaso vocês venham a fazer, do que mergulhar na intensidade do corpo sem órgãos, ou das sínteses passivas, ou das imagens diretas do tempo.
Esta conferência foi um pouco como a produção do sujeito-artista de Proust que, em sua experiência fantástica, em sua experiência transcendental, rompe, põe fim ao sujeito psicológico e às suas associações de idéias. De outro modo, Proust quebra o esquema sensório-motor por dentro, faz aparecer os mundos possíveis pela aventura do pensamento involuntário e descobre a essência do tempo primordial da arte e da filosofia. Obrigado.
Pergunta: Eu quero perguntar ao filósofo Ulpiano se ele pensa que o poder do inconsciente poderia reorganizar o processo reflexivo alterado pela mídia eletrônica.
Claudio Ulpiano: Eu tenho tanta certeza disso que eu não preciso nem efetuar o cogito. Quando eu disse o exercício involuntário do pensamento, esta palavra pensamento tem como sinônimo o inconsciente; o exercício involuntário do pensamento tem como sinônimo o inconsciente. E o pensamento, da maneira que eu o penso, é exatamente para quebrar a tradição do modelo ocidental construído pela lógica platônica e aristotélica do mundo da representação. O pensamento, de maneira nenhuma, tem como questão a reforma do mundo. A questão do pensamento é permanentemente produzir mundos, produzir novos mundos. E eu acredito que nesses outros mundos a mídia enfraquece.
Acerca dessa visão plotiniana: eu diria que há uma tendência de se entender, de se compreender a questão numa formulação mística. Não existem múltiplos eus; só existe o sol. As projeções, na verdade, não passariam de aparências. Será essa a sua visão?
Para Plotino não há tempo sem a alma. A alma traz o tempo, a alma, o eu larvar, a mônada do Leibniz. Ou seja, onde não houver um eu-larvar, onde não houver uma pequena alma, não existiria o tempo. Por exemplo, esta bombinha de asma. Se ela não estiver povoada por uma multiplicidade de almas que contemplam, esta bombinha de asma estará na eternidade.
Então, o que eu acabei de falar é que o animismo com o seu povoamento, com o povoamento que ele faz na matéria de uma multiplicidade infinita de almas que são intensidades, torna esse universo uma unidade extensiva mais uma multiplicidade intensiva. É como, por exemplo, Bergson fala de multiplicidade de justaposição ou de penetração. Então as múltiplas almas, sim, seriam necessárias.
****
Este texto é a transcrição de uma palestra dada por Claudio Ulpiano na Universidade Livre.  A Universidade Livre era uma associação de amigos que gostavam de conversar entre si e resolveram conversar em público. Nos anos 80 e 90, promoveram uma série de ciclos de conferências sobre temas diversos, que iam desde Cosmos e Consciência até Amazônia.  “Múltiplos Eus ” fez parte do ciclo Pontos de Fuga, realizado na Escola de Artes Visuais do Parque Laje, em 1995. O texto “A Travessia da Membrana: uma Imagem da Complexidade”, de Luís Alberto Oliveira, publicado neste site, em Colaboradores/Ciência, também faz parte deste ciclo.

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quarta-feira, 17 de abril de 2013

PROJETO AMA - VISÃO


                                               
          PROJETO AMA      





 ..."Em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o miinistério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus" - At.20:24

Ora, se os fundamentos forem destruidos, o que poderá fazer o homem? Sl.11:3

O Projeto Ama, como parte da Igreja do Senhor Jesus na cidade do Rio de Janeiro, tem apenas  uma motivação: Dar continuidade ao propósito eterno de Deus na terra, através de Seu Corpo, que é a igreja,  a união de muitos filhos semelhantes a Jesus. Seu propósito eterno  é,  frutificar, multiplicar e encher a terra  de homens e mulheres semelhantes ao Mestre do Amor, amando, perdoando e servindo uns aos outros e sendo  em nossa sociedade AMOR AMBULANTE.
 O Projeto Ama, entende a importância de se trabalhar em todos os seguimentos com fundamentos, alicerces bem fundamentados, tendo a consciência que toda e qualquer construção que se pretende crescer pra cima, impreterivelmente se faz necessário  primeiramente crescer para baixo, isso fala de  fundamentos..
Quanto maior for o objetivo do Projeto Ama de crescimento  para cima necessário é que haja profundidade para baixo. Dessa forma, sem pressa,  sem  triunfalismos, com motivações puras e simples, nossa igreja caminha em direção de edificar  fundamentos em Cristo, Sua Palavra, o qual considera de  grande importância para um crescimento sadio, equilibrado, sério,  maduro e com bastante conteúdo escriturístico.
O Projeto Ama, como  igreja do Senhor Jesus nessa cidade, crê que a principal base para a cooperação de implantação do Reino de Deus  é o AMOR. Considerando ser Deus-AMOR, tudo e todas as coisas concernentes ao Reino invariavelmente precisa ser permeado de Deus-amor. De forma que  tudo aquilo que se pretende construir sem Amai-vos uns aos outros, será construção dos homens para os homens.
O AMOR, que é Deus, que é o Espírito, que é Cristo, o cabeça da Igreja, essa linda família, é o ÚNICO FUNDAMENTO para se cooperar na edificação do Reino de Deus que é somente de Deus.

O Projeto Ama, tem um lindo sonho...

A igreja/família que o Senhor Jesus fundou  com sua morte e ressurreição, foi a união de gente simples, apaixonada, dinâmica, amável e cheia de AMOR e misericórdia de uns para com os outros e para com TODO e qualquer ser humano criado por Deus/amor.
A manifestação dessa igreja/família é algo explosivo, que será capaz de deixar o mundo, nosso  país, nossa cidade e nossos bairros e todas as famílias em uma eminência de uma grande manifestação  de AMOR, que culminará em milhares de vidas, salvas, cuidadas, servidas, perdoadas, sem culpa, sem mêdos, sem controles e manipulações, que entenderão assim a respeito do propósito eterno  de Deus, se transformando em discípulos, que  farão discípulos do Mestre do AMOR, por onde  caminhar.
A manifestação de Cristo como CABEÇA, e Ele somente tendo a primazia em tudo(consideramos seriamente que um corpo não pode ter duas cabeças ou mais), dessa família/igreja, que é Seu corpo é a grande  ferramenta para cumprir o eterno propósito de Deus.
Disse o mestre do AMOR: Enquanto estiverem andando façam as nações de discípulas, transferindo suas vidas uns para os outros, o que  levará a cada um de nós seus discípulos 'a conversão a Deus e a conversão ao próximo.
Uma igreja/família isenta de manipulação e controle, que não carrega a ênfase no dinheiro e que dispensa a visão do sistema religioso impregnado pelo mêdo, culpa e condenação, e que não necessita de grandes heróis quase intocáveis. Uma família/igreja, como CORPO de Cristo, que tem sua maior expressão, em: Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei, que não trás em si apenas uma mensagem, mas que entende que ela é a mensagem, que vai se alastrar por todos os cantos de nossa tão amada cidade, e será permeada de amor.
Essa igreja/família, que  como igreja local a denominamos, PROJETO AMA, tem a força e poder fluindo de Seu Construtor(Eu construiriei a minha casa/igreja/corpo/família) e esse poder transferido para muitos discípulos a serem  formados em nossa geração, que se transformarão em AMOR AMBULANTE.
O Projeto Ama,  trabalha mais com  a construção de  companheirismo, amizade e relacionamento saudáveis, tendo  menos ênfase em eventos, shows  e construções, assim podemos crer em uma igreja/projeto ama, como uma manifestação de muitos filhos  parecidos com Jesus, em meio a sociedade debaixo dos quarentas graus da vida.
O projeto Ama,  crê em um crescimento voltado  para o AMOR/DEUS, crescendo em simplicidade, ao serviço uns aos outros, que  irá muito além enquanto permanecer com seus olhos molhados, como quebantamento e singeleza de coração.
Essa igreja/família/ProjetoAma, entende que : Sabemos que passamos da morte para a vida quando amamos uns aos outros, pois aquele que não ama permanece  na morte:Jo.:3:14. Sendo assim, nosso caminhar em meio a indiferença,  malignidade, e insensibilidade de uma geração, será: amai-vos uns aos outros, servi uns aos outros, perdoai uns aos outros, suportai-vos uns aos outros,  compartilhai  bens, dons e talentos uns com os outros, considerai os outros superiores a si mesmo, buscai mais o interesse do próximo do que o seu próprio. 

UMA FAMÍLIA ONDE NÃO EXISTE  NENHUM NECESSITADO(At.4;32-34).

Uma família/igreja que semultiplica, que faz discípulos a semelhança do Mestre do AMOR e que o verdadeiro recurso não é a prata nem  o ouro, mas sim as PESSOAS. Uma Igreja na qual um único nome se destaca: O CORDEIRO DE DEUS...

O PROJETO AMA, COMO IGREJA  NO RIO DE JANEIRO, como sugestão aos seus membros, tem 
CINCO PASSOS QUE 
considera de extrema importância para seu crescimento e amadurecimento..

1) - Revelação da pessoa do Senhor Jesus Cristo.

O projeto Ama, considera que cada pessoa envolvida como Reino de Deus e consequentemente com Seu CORPO, deve entender a importância insubstituível, imprescindível, irrevogável, de ter uma experiência, pessoal, individual com o Senhor Jesus Cristo, a semelhança de João, Estevão,  Isaías, Daniel, Pedro, Thiago, Ezequiel e outros, contemporâneos, comprendendo assim o Seu Eterno Propósito. Uma revelação clara de Seu senhorio em seu interior. Creio que sendo assim,  cada um dos discípulos do mestre do AMOR, tendo  tal experiência e O conhecendo(veja 1 Jo.1:1-8)  em sua prática diária de vida, dependendo apenas dÊle e de Sua palavra e direção, esse  querido discípulo não necessitará  ficar debaixo de controles, jugos e  manipulções de homens sobre homens, quebrando assim tais paradigmas  do sistema religioso.

2) - Inclusão Imediata na Família/Igreja

O projeto Ama, entende que cada discípulo de Cristo que tem  essa revealção,  pessoal de Cristo e o Espírito de Cristo habita em seu espírito tornado-se assim UM, então essa pessoa entra de imediato nesse CORPO, é batizado  no CORPO de Cristo que é a igreja/família. Esse corpo está espalhado por todo o mundo,  países, cidades, lugarejos, bairros, e no caso do PROJETO AMA, está localizado  como parte dessa linda igreja, na cidade do rio de janeiro, no bairro da vila da penha,como  extensão em outros bairros da cidade.

3) - Estilo De Vida

O Projeto Ama considera que, uma vez que essa pessoa, tenha a revelação pessoal de Cristo, e imediatamente é imerso em seu corpo invisível, representado visivelmente pela manifestação da igreja/família na terra, agora é necessário  viver no dia a dia como ESTILO DE VIDA, junto a seus familiares,  amigos de trabalho, universidade, parentes e  entretenimentos, como uma manifestação dia´ria em todos os locais, em todo tempo com  uma expressão de amai-vos uns aos outros e servir uns aos outros. Consideramos  um estilo de vida diário, junto aos conhuges, filhos, familia parentes amigos, mais significante do que apenas a participação em cultos, apresentações, programas, eventos, musicaiss, embora reconhecemos a importância de cada um desses elementos em nossa vida diaria de adoração ao Senhor.

4) - Casas De Amor

O Projeto Ama, entende que quando cada uma dessas pessoas tem uma revelação do Senhor Jesus Cristo, é incluída imediatamente em seu Corpo,  passa a viver como Estilo de Vida no dia a dia debaixo dos 40 graus da vida,  semelhante ao Mestre do Amor,  então essa vida , por ter agora esse entendimento, passa a ter uma nova visão sobre seu lar.
Sua casa passa ser agora um lugar de serviço, perdão,apoio, preocupação e sobretudo AMOR, para com os vizinhos, amigos, parentes e todos aqueles que buscarem auxílio em qualquer a´rea.. CASAS DE AMOR, é um lugar de amor, comunhão, partir do pão, orações,  testemunhos e serviço de uns para com os outros.
A igreja/família PROJETO AMA, tem como objetivo estar em o maior número de casas possíveis em nossa cidade, ajudando-as a serem transformadas em CASA DE AMOR.


QUAL A VISÃO DO PROJETO AMA PARA AS CASAS DE AMOR


O QUE DEVE ACONTECER NOS ENCONTROS NAS CASAS DE AMOR:

a) Amizade, relacionamento,  companheirismo
b) partir do pão
c) Compartilhamento da palavra
d) Orações
e) Serviço uns aos outros


Cada CASA DE AMOR, agora deve ser uma luz em seu bairro, e o propósito de cada um de seus componentes é se transformar em instrumento de apoio a toda e qualquer eventual necessidade que possa surgir no bairro..
Cada Casa de Amor, tendo esse entendimento, sem pressão, sem obrigatoriedade, sem ordenanças e peso, poderá  exercer uma função social  expressiva em cada bairro que estiver fixada, sendo assim o olhar de Deus e da igreja na localidade afim de podermos ajudar em o máximo as necessidades que surgirão..
Cada Casa de Amor deverá estar interligada umas com as outras, trabalhando  sempre com o mesmo fim,  cumprir o propósito eterno de Deus,  multiplicando sua semente de Amor em todo tempo com sabedoria,  equilíbrio  e sensibilidade..
Cada Caa de Amor nos bairros é a manifestação do Reino de Deus/Amor ali localizado para influenciar o máximo de famílias possíveis afim de que se tornem também CASA DE AMOR...

NENHUMA NECESSIDADE DEVERÁ EXISTIR NAS CASAS DE AMOR...


5) Culto de Ministração, Ensino da Palvra e Adoração aos aos domingos na igreja local..
  
O  Projeto Ama, entende que cada pessoa que tenha  provado de uma revelação  vívida do Senhor Jesus Cristo, e imediatamente sendo inserido em seu Corpo,  vivendo após isso um estilo de vida semelhante ao mestre do Amor no dia a dia,  permitindo sua casa ser transformada em uma casa de amor, deverá estar  comprometida em estar nos encontros da família aos domingos, e todos a uma estarão para  cantar, ter comunhão,  aprender mais das escrituras, ser ministrados, serem curados e edificados uns com os outros...
Tais encontros não são de cara´ter opressor,  caso  não se possa compareccer não haverá cobranças e mal estar, apenas compreensão e  estimulo para se conviver cada vez mais  juntos uns com os outros...
Nos encontraremos para comermos juntos, deixarmos os dons fluirem juntos, louvarmos ao senhor juntos e recebermnos nosso alimento espiritual vindo do ensino  verdadeiro, sadio e equilibrado da palavra.


O PROJETO AMA, se reúne  aos domingos  na VILA DA PENHA, rua professor paula aquiles,4
O horário é das 16:00 as 18:00 hs
O PROJETO AMA, tem núcleos em Campo Grande e no Jardim Botânico

Tel.: 21 82425188 - 34739666

Pastor - Ricardo Brunet

  pelos vínculos do amor..

segunda-feira, 15 de abril de 2013

...Sacramento do Pão

O SACRAMENTO DO REINO..

Parte I



A comida representa o modo de se estruturar dos diferentes grupos da sociedade. Na hora de sentar-me a mesa escolho meus amigos ou comensais. Nem todos podem comer com todos. E isso vale tanto para a sociedade do tempo de Cristo.
Na época de Jesus um judeu não tinha permissão de comer, com pagão, como se deduz pela reprovação que os cristãos de Jerusalém fazem a Pedro a respeito de sua visita a
casa de Cornélio(At.10:28 e 11:3), e em nosso tempo não é frequente que a dona de casa convide a empregada a sentar-se na mesma mesa 'a qual convida as suas amizades. As categorias sociais e as barreiras que elas estruturam manifestam-se nas refeições. Podemos dizer que a mesa une e separa, ao mesmo tempo. E isso por diferentes razões.
Os autores assinalam diversos sistemas de discriminação e exclusão em uma sociedade de desiguais. Em primeiro lugar, o sistema da pureza, ou o sistema religioso, que é um prolongamento das práticas do templo aplicadas 'a convivencia entre as pessoas. Como no templo nem todos tem o mesmo privilégio, tampouco na sociedade tudo é permitido. Há ordenamentos claro não apenas sobre o que se come, mas principalmente sobre com quem se come.(Mt.2:16). Temos também o sistema de honra-vergonha, pelo qual as pessoas se sentem diferentes e desiguais e pelo qual se pretende defender a superioridade do homem em relação a mulher, ou na de uma raça sobre outra, ou na de um sobrenome sobre outro. Por fim está o sistema da relação patrão-cliente, pelo qual se reconhece que nem todos tem os mesmos direitos nem as mesmas possibilidades. Alguns estão acima de outros e é preciso saber jogar para poder subir ou ganhar influência. Esse é o contexto social, não tão distante de nós, de um mundo que na mesa marca as diferenças, as desigualdades e as rupturas, Nesse mundo Jesus anuncia o Reino.
Mas como Ele o anuncia? De muitas maneiras, com ensinamentos,com parábolas, assim como com suas ações e seu comportamento. Chama a atenção sobretudo o lugar privilegiado que adiquire nos evangelhos o tema da comida como maneira de pregar e tornar presente o Reino.
Chama a atenção porque, por tratar-se de um homem como Jesus e de um tema religioso, esperaríamos que o jejum, a abstinência e a mortificação ocupasse o lugar central. Para Jesus o Reino é mesa compartilhada, porque quer afiançar os laços de fraternidade, de solidariedade, e de comunhão entre as pessoas. É sobretudo o evangelista Lucas que insiste nessa perspectiva do anúncio do Reino.
No tema da comida como metáfora do Reino, Jesus não é inovador e sim continuador da expectativa messiânica do Antigo Testamento. O texto de Isaias, 25:6-8, nos fala dessa expectativa. "O Senhor de todo poder prepara sobre esta montanha um festim para todos os povos, um festim de carnes gordas e de vinhos velhos, de carnes gordas suculentas e de vinhos velhos decantados. Ele fará desaparecer sobre essa montanha o véus estendido sobre todos os povos, a mortalha que cobre todas as nações. Fará desaparecer a morte para sempre. Os melhores vinhos e os manjares mais deliciosos para celebrar a presença de Deus, o triunfo da vida e a comunhão de todos os seres humanos. Porque é uma festa organizada por Deus, para todos os povos. Jesus, profeta, não apenas continua essa tradição mas também a realiza. Com Sua chegada o sonho se torna realidade.
A mesa compartilhada é o melhor simbolo para expressar a verdade central sobre o Reino e sobre o Deus do Reino. O Reino é sobretudo uma experiência de família, de comunhão e de prazer, porque é proximidade de Deus pai das pessoas. Se isto é assim, não devemos estranhaar que a mesa, a comida, o banquete, sejam temas centrais porque são melhor símbolo da família reunida. Está aí para proclamar isso a maravilhosa parábola, mal chamada de parábola de filho pródigo, que tem o seu centro no abraço do pai no filho que retorna, no banquete para ele, em que se mata o melhor bezerro, e no convite que faz a todos "comamos e festejemos"..(Luc.15:23). O júbilo familiar celebrado por todos em torno da mesa, é a sua melhor pregação sobre o reino.
A imagem preferida de Jesus pra nos falar o que é central em sua mensagem não é o extase beatífico, mas o banquete e a comunhão da mesa, a festa compartilhada. "Ora eu vos digo, muitos virão do nascente e do poente tomar lugar no festim com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus(Mat.8:11). Essa pregação de Jesus sobre o reino, em parábolas de banquetes e de casamentos, provoca a entusiasmada declaração de um de seus ouvintes: "Feliz daquele que participar da refeição no Reino de Deus"(Lu.14:15).
Jesus não apenas nos fala do reino na forma de comida, mas Ele próprio come e suas refeições ão a melhor parábola, uma parábola ambulante, em ação. O oferecimento da Graça salvadora e integradora do Reino é encenado por jesus com suas refeições com todo o tipo de gente. O ato de comer junto é sobretudo um gesto de amizade, de aceitação e de comunhão por meio do qual não somente se oferecem alimentos, mas também, de certo modo, oferece-se a si próprio, oferece-se um pedaço de si mesmo. É isso que jesus está prclamando, que o reino de Deus chega e se torna presente onde as pessoas são capazes de se sentar 'a mesma mesa para compartilhar o pão.
Jesus proclama e realiza o reino de Deus comendo com as pessoas. Mas há algo que chama escandalosamente a atenção nas refeições de Jesus. Sua comunhão da mesa é com os desclassificados e marginalizados da época, tanto pelo sistema religioso como pelo social ou economico. Jesus escandalisa porque come. Essa é a recriminação feita pelos seus inimigos:"Os discípulos de João jejuam com frequencia e fazem orações, e do mesmo modo, os dos fariseus, ao passo que os teus comem e bebem(Luc.5:33). Recriminação da qual o próprio Jesus tem que se defender quando diz: "João, o batista, veio, ele não come pão não bebe vinho.....veio o filho do homem, come..bebe, e dizeis:És um comilão e beberrão amigo dos coletores de impostos e dos pecadores(Luc.7:33-34 e MAT.11:19). Comilão e beberrão parece ser uma alusão a Deut.21:18-21, em que se declara a condenação a morte do filho que é comilão e beberrão, e se mistura com pessoas indesejáveis. A reprovação sendo a qual Ele dá boa acolhida aos pecadores e come com ele(Luc.15:2, Mac.2:15), expressam o escandalo e o distanciamento daqueles que tinha segurança que Deus não admitia a todos por igual em sua mesa, em sua casa. A polêmica nos fala do conflito e do escândalo provocado por Jesus em sua forma de comer.
Porque o escândalo e o conflito? Porque, com sua forma de comer, Jesus não apenas rompia esquemas sociais da época, mas tambem esquema religiosos. Aqueles os quais Jesus comia, consistiam em pessoas difamadas, em pessoas que gozavam de baixa reputação e estima, os incultos e ignorantes cuja ignorancia religiosa e comportamento religioso fechavam, segundo a convicção da época, a porta de acesso a salvação. Não somente a sociedade os excluia e os marginalizava como também o próprio Deus o fazia. Na mesma época de Jesus, a comunidade religosa dos monges de Qunran, afirmava que os loucos, os alienados, os idiotas, os dementes, os cegos, os paralíticos, os coxos, os surdos e os mudos, nenhum deles poderiam ser admitidos na assembléia da comunidade. E nesse comportamento não faziam outra coisa senão aplicar a legislação que levítico indica.

pelos vínculos do calvário

ricardo brunet

O SACRAMENTO DA VIDA E DA FESTA


A Eucaristia é a atividade central da igreja, mas essa atividade aparece para a maioria como um ato de culto, ritual e sagrado, não como um ato familiar e comunitário como pode ser o ato de comer. Contudo, chama a atenção que esse ato central, no NT, seja denominado "fração do pão"(At.2:42) e "ceia do Senhor"(ICor.11:20) dois termos relacionados com esse experiência humana básica que é o ato de comer. A expressão "partir o pão", não pertence ao mundo grego, mas o judaico, e representa o rito da comida familiar presidida pelo pai de família, pelo qual se da graças a Deus pelo alimento. Era um gesto humano, familiar e religioso ao mesmo tempo, que o Senhor faz seu.
Por outro lado a "ceia do Senhor", também nos remete a essa experiência humana do comer juntos em um momento

privilegiado da vida de Jesus. É "do Senhor!, certamente, e veremos que sentido,Jesus quis atribuir-lhe, mas também "ceia" é comida. O que surpreende é que Jesus tenha querido deixar para sua igreja, como ato central pelo qual quer ser recordado, o ato humano da comida. Porque a comida e não o jejum, por exemplo ou outro signo distintivo qualquer? Porque parece, que segundo a mentalidade corrente da época de Jesus, o jejum, aproximava mais de Deus do que a comida. E isso explica que Jesus apareça nos evangelhos como aquele que come com os homens e tenha que se defender por isso. "Veio o filho do homem, e ele come e bebe, e dizem: "Eis um glutão e um beberrão, amigo dos coletores de impostos e dos pecadores"(Mat.11:19). Como já vimos antes, o que caracteriza a época de Jesus não é o jejum, MAS A FESTA PELA PRESENÇA DO ESPOSO(Mc.2:18-22). A comida compartilhada expressa melhor a novidade desse tempo porque a comida é um sacramento. O Senhor faz sua essa realidade humana do comer para expressar o sonho pelo qual deu a vida. Daí que devamos partir dessa realidade humano para compreender o mistério da eucaristia.

O SACRAMENTO DA COMIDA

Comer é uma necessidade biológica que o ser humano compartilha com os animais,mas a sua comida nunca é mera atividade biológica, é sobretudo um fenômeno cultural e social, pelos múltiplos aspectos que implica.. Ninguém, por exemplo, que vai a um restaurante, escolhe o comer pela quantidade de proteínas que os alimentos contém, ainda que esses sejam mais nutritivos e baratos. Além do aspecto prático e técnico de satisfazer uma necessidade biológica, existe também o aspecto estético, que a propaganda televisiva aproveita como maestria. A mensagem entra pelo olhos. Mas porque se vai a um restaurante? Pode ser por comodidade, porque , porque é barato, mas sobretudo porque se apresenta uma ocasião especial, uma celebração, um aniversário, e então não apenas se escolhe o lugar em que se vai comer ou os pratos, sobretudo, as pessoas com as quais se come. Muitas vezes a seleção de um determinado restaurante é indicativa do status social de quem seleciona. Quando descobrimos, quando,onde e em companhia de quem são consumidos os alimentos, estamos em condição de deduzir, ao menos parcialmente, o conjunto de relações sociais que prevalecem em um grupo. Por isso se pode dizer que o "comer é a alma de toda cultura". Por isso, também podemos identificar os italianos com a pasta ou os mexicanos com a tequila ou as tortillas.
A comida é o "sacramento" privilegiado para expressar uma maneira de ver e de entender o mundo e a coesão de um grupo dentro de uma sociedade porque a comida expressa todo o sistema cultural ao qual pertence. Não há dúvida, de que em nosso mundo moderno, na proliferação dos numerosos estabelecimentos de refeição self-service, descobre-se muito da sociedade moderna tecnificada e planificada com tendência ao individualismo, e por trás das numerosas e variadas dietas descobrimos não apenas produtos light, mas uma cultura light, ou uma cultura do corpo e da estética. Uma espécie de religião laica do corpo. A comida também diz muito sobre o universo religioso de uma sociedade. Até háóico tempo os católicos se e identificavam por não comer carne nas sextas-feiras, e certos grupos religiosos rejeitam a carne de porco ou certas bebidas fermentadas.
Há sobretudo dois aspectos fundamentais no comer que ajudam a nossa reflexão sobre o valo sacramental da comida. O primeiro é que as regras do comer em uma sociedade não somente são expressão de bons modos, mas estão estreitamente relacionados com as barreiras ou fronteiras que um grupo social estabelece com o mundo social que o rodeia. O caso mais chamativos seria os dos judeus e suas proibições, de ordem religiosa, de comer com pagãos(At.10:28 e 11:3). O segundo é que a ordem interna de um grupo social se reflete e se sustenta na regra sobre o comer. e estas, por sua vez, expressam os valores e as hierarquias de um grupo social.
Expressão do que estamos dizendo a encontramos no capítulo 14 do evangelho de Lucas. Jesus é convidado a comer por um chefe dos fariseus que se sentia orgulhoso de acolher o famoso profeta. Jesus percebe que os comensais buscam os primeiros postos e então apresenta ao grupo um parábola 'a qual acrescenta tambem uma conclusão estranha também para nós: "quando deres um almoço ouum jantar, não convide teus amigos, nem teus irmãos,nem teus parentes nem vizinhos ricos,senão eles também te convidarão em troca e isso te será retribuido. Ao contrário,quando deres um festim, convida,pobres,aleijados, cegos e coxos, e será feliz porque eles não tem com que retribuir"(Luc.14:12-14). O testo reflete admiravelmente um mundo social estruturado e hierarquizado como qual comungamos ou do qual nos distanciamos. A comida,por isso,é um sacramento extraordinário,para expressar a comunhão, ou as rupturas em uma sociedade.
refeições, de ontem e as de sempre, falam-nos dos modelos de relações sociais, da estratificação da sociedade e da solidariedade entre grupos. Ser admitido em uma refeição é ser admitido em um círculo de igualdade, de amizade e de solidariedade. O aspecto da relação social é sem dúvida mais importante que a comida. O IMPORTANTE NÃO É COMER MAS ESTAR JUNTOS.

O SACRAMENTO DO PÃO...
Manuel Diaz Mateos

pelos vínculos do calvário..

continua.......